domingo, 31 de julho de 2016

PETROBRÁS

CONTENCIOSO DA PETROBRÁS    
TRIMESTRE   VALOR, EM US$ BI
31/03/2003   $25,68
30/06/2003   $30,38
30/09/2003   $32,28
31/12/2003   $36,19
30/06/2004   $34,19
30/09/2004   $37,31
31/12/2004   $40,58
31/03/2005   $40,19
30/06/2005   $42,68
30/09/2005   $45,72
31/12/2005   $45,72
31/03/2006   $46,84
30/06/2006   $45,14
30/09/2006   $47,73
31/12/2006   $54,38
31/03/2007   $52,86
30/06/2007   $54,84
30/09/2007   $56,68
31/12/2007   $64,54
31/03/2008   $66,63
30/06/2008   $73,96
30/09/2008   $67,38
31/12/2008   $63,79
31/03/2009   $67,74
30/06/2009   $78,30
30/09/2009   $99,16
31/12/2009   $106,21
31/03/2010   $108,88
30/06/2010   $113,04
30/09/2010   $123,56
31/12/2010   $126,08
31/03/2011   $139,94
30/06/2011   $146,88
30/09/2011   $134,79
31/12/2011   $145,10
31/03/2012   $153,43
30/06/2012   $144,09
30/09/2012   $149,50
31/12/2012   $166,68
31/03/2013   $178,26
30/06/2013   $185,39
30/09/2013   $187,05
31/12/2013   $173,93
31/03/2014   $197,76
30/06/2014   $199,62
30/09/2014   $193,56
31/12/2014   $181,98
31/03/2015   $164,65
30/06/2015   $176,80
30/09/2015   $161,62
31/12/2015   $165,28
31/03/2016   $167,60

sexta-feira, 22 de julho de 2016

DONALD TRUMP


UMA AMEAÇA À DEMOCRACIA
Por Aluizio Gomes

“Ninguém conhece o sistema melhor do que eu, por isso sou a pessoa mais qualificada para consertá-lo".
(Donald Trump).
Aff, é muita presunção!

Qual a diferença entre a ascensão de Hitler e a de Donald Trump? Naquela época a Alemanha tinha sido derrotada na guerra, foi humilhada pelo tratado de Versailles, estava sob real ameaça comunista, além de uma inflação nunca vista. Hitler capitalizou tudo isto e foi eleito pelo partido nazista. Já nos Estados Unidos, não. A inflação está baixa, os juros, também, o desemprego está baixo também, o PIB crescendo. Não há motivo para tanta demagogia. O único motivo é o indisfarçável despeito dos brancos por um mulato estar na Casa Branca, por dois mandatos .
Já estive em Nova Iorque e presenciei o racismo. Isto numa cidade cosmopolita, imagine no Alabama, Mississipi.

Agora, vamos aos acordos comerciais. Trump alega que provocam desemprego nos Estados Unidos. É uma mistura de hipocrisia, mentira, demagogia, e desinformação. A economia americana passa de ser industrial para ser de serviços, se cai de um lado, sobe de outro. Se um produto é feito na China a baixo custo, não pode ser feito nos EUA a um custo muito maior. Se Trump, como quer, fabricar coisas nos Estados Unidos, deixando de importar, a inflação vai aumentar, o produto vai ficar caro, sem condição de concorrer com o importado. A inflação nos Estados Unidos está em quase ZERO, o PIB aumentando, o desemprego baixo, e até a produção industrial aumentando. Tudo o que Trump faz é simplesmente terrorismo, aproveitando a ignorância generalizada das pessoas.

Outra mentira: que os negros estão matando policiais. Não foi assim, os policiais brancos começaram a matar negros indefesos, e só depois de a justiça nada fazer, é que houve reação dos negros. VIOLÊNCIA E INJUSTIÇA GERAM VIOLÊNCIA.


Quem assistiu ao filme "Mississipi Burning" (Mississipi em Chamas), com Gene Hackman e Willem Dafoe, pôde ver o arraigado racismo lá.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O SONHO

O GRANDE SONHO ATÁVICO EUROPEU

Por Aluizio Gomes
Geólogo

A Europa começou a ser ocupada pelo homem com o fim da última glaciação. O homem originou-se na África, migrou para a Ásia e , com o recuo das geleiras, chegou à Europa. Os fósseis, restos de esqueletos, artefatos de metal e cerâmica, pinturas rupestres, etc., foram e são encontrados por todo o continente europeu. Os fósseis humanos foram classificados em dois grupos principais, o homem de Neandertal, e o homem de Cro-Magnon, registros do Paleolítico e Neolítico.

Os séculos foram passando, mas o europeu continuava brutal, troglodita. O asiático, ao contrário, começou a evoluir, desenvolveu a escrita, domesticou animais e plantas, bem como o comércio e a navegação. Daí a formar os primeiros impérios foi um passo: Assírios, persas, egípcios, babilônios, hititas, etc.
Já na Palestina, a evolução foi espiritual e não material. Até hoje o Antigo Testamento nos guia neste sentido. E a Europa? Ainda no atraso. Anos se passaram até que os gregos começaram a sair da letargia, e formaram uma admirável civilização, e depois um império oriental, sob o comando de um macedônio.

Só depois apareceu o império romano, forte, organizado, que engoliu todo mundo, na Ásia e na Europa. Até hoje, o Direito Romano guia o conhecimento jurídico. Com a construção de estradas, ligando todo o império, rotas de navegação, e administração organizada, podemos afirmar que foi a primeira globalização da História.

Um dos motivos da queda do império romano foi a demografia, nas áreas externas cresceram muito as populações bárbaras. Afinal, foram séculos de crescimento populacional.Ao lado disto, os próprios bárbaros foram evoluindo economicamente e culturalmente. Foi como uma bomba de efeito retardado. Implodiu com as invasões bárbaras, enquanto internamente, os romanos se dividiam em querelas civis e militares. Caiu o império, acabou a globalização, a cultura, e começou a Idade das Trevas (Idade Média). A Europa foi fatiada entre os bárbaros, que adotaram a religião cristã e o próprio latim, que podia ser escrito. As fatias germinaram em nacionalidades independentes, franceses, ingleses, suecos, espanhóis, etc., que começaram mais de mil anos guerreando entre si, procurando cada um a hegemonia, nunca jamais alcançada.
Havia um sonho, um sonho de restaurar o brilho de um império, o império romano. Mas forças antagônicas, um nacionalismo exacerbado sempre obstaculizou a realização deste sonho. Impérios menores, como o germânico e o russo, por exemplo, conferiram títulos de César a seus imperadores: Kaiser e Tzar, significando César.

Antes, ainda no ano 800, o Papa já havia coroado Carlos Magno como imperador, originando o Sacro Império Romano-Germânico, mas como uma vez disse Voltaire, nunca foi Sacro nem Império e nem Romano.

Passaram-se os séculos, mas o sonho não morre. Mussolini sonhou em restaurar o império, Hitler sonhou no Reich de Mil Anos, tudo em vão.

Mais modernamente, surgiu a ideia de uma União Europeia, sempre ao lado de um nacionalismo separatista. A Iugoslávia e a Tchecoslováquia se fragmentaram, os ingleses sempre foram arredios a uma união. Até hoje dirigem seus carros na contramão e nunca adotaram o sistema métrico decimal, por pura implicância com os franceses, que criaram estas reformas.

Certa ocasião, afirmou Henry Kissinger: ”Quando quero falar com o Japão, sei a quem me dirigir. Quando quero falar com os chineses também. Mas, quando quero falar coma Europa, procuro quem?”

Finalmente, para competir com japoneses e americanos, fundou-se a União Europeia. Diferenças culturais e econômicas sempre foram pedras no sapato. O Reino Unido entrou, mas com um pé fora, não adotou a moeda única, e agora, finalmente sai da união, esfacelando mais uma vez o sonho atávico europeu.

Recife, em 24 de Junho de 2016.

Publicado no Jornal do Commercio no dia 02/07/2016, não na íntegra, por falta de espaço.


segunda-feira, 30 de maio de 2016

HISTÓRIA DE FAMÍLIA

HISTÓRIA DA FAMILIA MEIRA LINS.

POR JOSÉ OTÁVIO MEIRA LINS.

OBS: SALVAMOS DO FACEBOOK APENAS OS CAPÍTULOS A SEGUIR (ALUIZIO GOMES)

5º Capítulo
ACHEI QUE TE AMAVA

Isso é um problema de família. E dos dois lados. O avô por parte de mamãe tinha um listão de setenta e duas namoradas. Papai, com cinco anos, já tinha se apaixonado perdidamente pela professora de piano; passou uma semana sem comer quando cancelaram as aulas. Comigo não podia ser diferente, foram muitas paixões. Não confundam com amor ou safadeza, isso é outra coisa. Falo daquelas paixonites platônicas, anônimas, que se apoderam de sua cabeça – pensa, pensa, pensa... Paixão é coisa que perturba o juízo e não passa nem perto do coração. Começou aos quatro anos, com a professorinha do jardim.
Na época era jardim mesmo, pois a aula era embaixo de um caramanchão florido na casa da bela. A vizinha paulistinha vinda do interior, puxando pelos erres, era um misto de Dóris Day em “A espiã das calcinhas de renda” com figuras românticas de algumas porcarias que li em M.Delly – avisei que não tive filtro na leitura. A filhota do meio de um amigo de papai, com quem fizemos uma viagem de Kombi para o Rio – linda, linda, linda... Uma alemãzinha que foi jogada lá em casa enquanto os pais passavam uma temporada na Alemanha – branquinha, lourinha, com uma butuca de olhos azuis. Passei da infância e, mesmo assim, ainda continuei com as paixonites agudas. A bela do muro – passava a tarde em cima do muro em frente ao prédio onde morava, uma decepção quando finalmente me aproximei, pois só comia batata frita e execrava qualquer outra variação gastronômica, o que era um sacrilégio para quem vem de uma família em que a comida é cláusula pétrea da boa vida. A outra, que fingia ser ela e me deixava louco, ligava para mim assim que passava em frente ao prédio da bela; quando descobri, tive a maior oscilação na autoestima que um cara pode ter.
A priminha que correspondia, mas que a norma de família – primo não namora com prima –afastou. Uma irmã mais velha de uma tia torta, belíssima, mas muito barro pro meu caminhãozinho. Muito barro mesmo, pois hoje pesa quase uma tonelada, de gorda que é. As gêmeas cariocas que todo ano passavam o Carnaval na cidade, mas que só tinham olhos para dois marmanjos com quem se casaram e se deram mal. A coleguinha de faculdade que, na casa de campo – de medo – exigia dormir no meu quarto, cuja barra não enfrentei, pois, por trás do rosto angelical, existia uma fera que eu não sabia se podia controlar,sem falar nos peitões que não faziam meu gosto na época. A paulista quatrocentona que só pensava em arrumar um descendente de bandeirantes e execrava qualquer outra descendência, mesmo que estivesse no solo pátrio desde mil quinhentos e trinta e dois. A coroa goiana, mulherona, que dava, dava e dava corda, mas não ia além disso, pois era casada com um cara pra lá de brabo. Precisou passar muitos anos e a viuvez para que... aí já não foi paixão, foi safadeza mesmo.
 Não consegui bater vovô no ranking das namoradas, foram apenas quarenta e três, olha que comecei tarde. A primeira pegada de mão aos dezesseis. Dois namoros sérios, um deles com alguns jogos de guerra, pois, na época, não se podia fazer muita coisa. Avançou, casou. Com a instituição da vela, a irmãzinha, que tava o tempo todo colada no casal... era quase impossível até passar por perto dos peitinhos, maior sonho de consumo da época. Com essa convivência toda, não foi nem uma, nem duas vezes, que me apaixonei por uma linda irmã-vela. Confesso que tive algumas – muito poucas – chances de penetrar o flanco inimigo, a galega sem os dedos dos pés foi uma delas, mas o medo de acertar o pito da menina e ter que casar fazia qualquer um não passar das coxinhas das garotas. Pra quem ficou curioso com a lourinha sem dedinhos, a história é a seguinte: ela era linda, ela era inteligente, ela tinha um corpão, no teste de praia era nota dez; o negócio é que, quando se chegava perto e se olhava bem direitinho, faltavam os dedos do pé. As riquinhas, de boa família, pareciam já ter nascido comprometidas; namoravam apenas com as parelhas dos riquinhos de boa família. Outra baboseira era se apaixonar pelas mais velhas. Pura roubada, pois elas pareciam que nem te enxergavam. Nesse caso, foram muitas: a riquinha que de tão bonita levou um pretendente ao suicídio; a húngara de olhos verdes; a modernosa que já fazia de tudo. Paixão, paixão, sempre achava que amava. Passou a juventude, tudo na mesma. Entrei na fase adulta, tudo na mesma. Já casado, tudo na mesma. Foi um carma que sempre me acompanhou – se apaixonar.

7º Capítulo
MODISTA
Pai rico, filho nobre e neto pobre. Esse era um dos ditados mais usados por vovó. Não era o seu predileto, muito pelo contrário, mas o mais repetido. Foi na pele que ela sentiu o dito popular. Vovô era filho do maior exportador de açúcar do país. Ele e os irmãos tiveram o azar de perder a mãe bem cedo.
O pai, que entendia tudo de exportação de commodities, e nada de educação, teve a imbecil-ideia-genial-comercial de separar os filhos, alguns ainda usando fraldas, e mandá-los para as melhores escolas em cada um dos países com o qual negociava o danado do ouro branco. Vovô – para sorte ou azar – caiu na terra da rainha.
No Eaton College, convivendo com a fina flor da Bretanha, só podia ter aprendido mesmo duas opções de vida, caçar, ler, caçar, tomar champanhe, caçar, cavalo puro-sangue inglês de corrida, caçar, atravessar o Canal da Mancha para Paris, caçar e comer bem, que ninguém é de ferro. Na volta da turma, só podia dar a merda que deu. Em um ano de administração, detonaram uma cacetada tão grande de contos de réis que o velho tomou de volta o rumo dos negócios, e aí ficou até morrer. Vovô passou assim a fazer o que mais sabia: caçar, com suas espingardas feitas sob medida no armeiro londrino, comer, ler em inglês, que era sua língua-mãe, fazer neném em vovó. Depois que o bisavô milionário morreu, foram mais de vinte anos vivendo nababescamente com o que tinha ficado de herança; olha que eram dezesseis filhos e um monte de agregados. Meu avô comeu ruas e ruas de casas, passou nos cobres engenhos e mais engenhos de açúcar.
 O conceito era fazer o que o dinheiro desse. Prova disso é que nunca colocou mais que alguns réis de gasolina no carro, chegou o dia em que o Buikão de rodas de madeira ficou na garagem de casa, nunca mais andou, porque a verba destinada não comprava nem um litro de combustível. Ele, o nobre; papai, o mais velho dos dezesseis, o pobre. Nos dezessete anos de papai, a grana havia acabado. Vovó, que era superprendada, virou modista. Passou a costurar para a turma da sociedade. Quando o dinheiro sai pela janela, o desamor entra pela porta. Vovó e vovô nunca mais se bicaram. Meu velho teve que ir à luta. De porteiro a empresário, foram mais de vinte anos. Nunca deixando para trás os irmãos. Foram anos roendo osso. Vovó chorava toda vez que, na mesa, um dos meus tios dizia: acabei ou acabou-se. Papai passou toda a vida comendo asa de galinha e o sobre. Mesmo podendo, nunca mais se habituou a uma sobre coxa ou a uma titela. Mamãe, que tinha casado e ido morar na mesma casa, criou parte da meninada. Não tinha comida que desse. Várias vezes, quando as coisas melhoravam, se saciava os esfomeadinhos com vinte quilos de batata frita, feitas em caldeirões no fogão externo, a lenha. A solução foi passar a criar porco, galinha e peru.
O perigo era uma vizinha de mão-leve. Os bichos só pararam de sumir quando vovó, após uma contagem conjunta-criteriosa, contratou-a para tomar conta do rebanho. A família sempre teve fixação por peru. Era a única ave que aguentava o tranco da fome da meninada e de vovô. Começaram abrindo uma pequena oficina no oitão da casa. Todos trabalhavam. O negócio foi crescendo. As estradas ruins quebravam muitas molas, abriram uma fábrica. Compraram uma frota inteira de caminhões, surgiu a transportadora. Daí para se conseguir revendas autorizadas, fazendas de gado, siderúrgica de ferro gusa, hotéis não foi um pulo, não, foram mesmo muitos anos de pedreira. O velho se recuperou de tudo, só não recuperou o gosto de gastar dinheiro. Tinha uma verdadeira obsessão por segurança. Achava que o dinheiro era pra se guardar. Via assombração em tudo. Não abria mão de fazer o imposto de renda de toda a família, o que transformava essa época num imenso terror familiar. Um dos poucos luxos que se dava era, de vez em quando, fazer uma comprinha por reembolso postal. Em computador nunca tocou, mas foi um dos primeiros empresários a colocar um nas empresas.

8º Capítulo
FRITADA E PASTELÃO
Essa minha família acha que a tal da comida é milagrosa, a começar pela lenda de que meu bisavô foi salvo da gripe espanhola por um dos tradicionais e pesadíssimos pratos típicos da família. O cara tava ferrado, de cama, suando mais que bode embarcado, sentiu o cheiro da mão de vaca feita pela preta velha na cozinha, colocou o robe de chambre, desceu a escadaria, comeu dois pratões da famigerada com pirão, teve uma suadeira dos diabos, subiu as escadas, tomou banho, colocou o fraque com colete, pegou o carro de aluguel, foi para os seus armazéns no cais do porto. Mandou a espanhola para além-mar, pra não dizer coisa feia. Temos uma puta fixação em comida. Isso ocorre há mais de quatro gerações. A maior parte da família já nasce cozinhando, seja homem, seja mulher. Dessa obsessão não escapa ninguém. Em época de fartura, em época de penúria, a comida é ponto central na cabeça da parentada. O interessante é que não tem gordo na família. O que os caras querem mesmo é se deliciar. O que importa é a qualidade, não quantidade.
Mesmo na pior das situações, a turma nunca deixou de falar do tal do arenque, do hadoque, do caviar, do salmão defumado, mesmo que fosse só pra ficar com água na boca. Sem falar que se usa comida até pra gozar os outros. A fritada de miolos de boi de vovó foi muitas vezes servida sem se dizer à vítima do que se tratava. De tão gostosa, quem não sabia o que era, enfiava o pé na jaca. Tinha gente que, depois de se refestelar, quando ficava sabendo o que tinha comido, corria sem a menor discrição para o banheiro e enfiava o dedão na goela. Toda história gira sempre em torno da comida: o amigo caçador que meu avô considerava já morto, sumido há mais de quinze anos, que ressuscitou batendo no portão exatamente no dia de uma panelada de mão de vaca, sua comida predileta. Cada um tinha, para os que já morreram, ou têm, para os que estão vivos e bulindo, um prato de sabor imbatível inesquecível. As tias: bolo de limão, bolo de banana, bolo de rolo, bolo de laranja, frango de forno, cozido, cassoulet, as inesquecíveis panquecas etc. As avós: feijão-mulatinho feito no caldeirão de barro no fogo de carvão, sopa de feijão, sopa de milho, peruada etc. Mamãe: sarapatel, vatapá, pirão de nenê, coq au vin, bacalhau de coco etc. Papai: o bouillabaisse, o hadoque pochê, peixada com peixe fresco bulindo, caviar com ovos cozidos, cebolas bem picadinhos, alcaparras etc.
Meu DNA não podia falhar. Com dez anos, pedi a minha avó que fizesse as famosas tapiocas de manteiga até eu pedir, por favor, pra parar. Aos onze, já sabia o dia do kassler com chucrute na casa da tia casada com o suíço. Nunca sem avisar da ida com antecedência, pois lá a ração era na conta certa, não comunicou que ia, ficava sem comer. Na casa da tia das panquecas, quando eu aparecia de surpresa, ouvia sempre o código FC. Descobri muito tempo depois que o “Família Contenha-se” era dirigido à voracidade dos sete filhos na mesa e uma consideração à visita. Tinha gente que até escondia comida: ganhava um prêmio quem descobrisse onde vovô escondia o presunto cru, as misteriosas latas de arenque e os potes de caviar de papai, que só apareciam na hora da mesa, os chocolates suíços do tio suíço, que duravam todo tempo entre uma viagem e outra para a Suíça. Quem é louco por comida passa também por poucas e boas. Uma vez, no interior, tive que comer um tatu que seria maravilhoso se a cozinheira não o tivesse servido com as próprias mãos, com o esmalte das unhas descascado. Ou o tal de picoroco no Chile, que mais parecia um caramujo apodrecido. Ouriço?, estou fora; rabo de tanajura?, também. Buchada de bode, tem que dizer que não gosta; depois, sentir o cheiro e aí aceitar, se não cheirar à merda de bode. Cozinho quase tudo e com facilidade. Ficou com água na boca? Gosta de cozinhar? No final dou umas receitinhas de família para você arriscar.


sábado, 7 de maio de 2016

UM TERREMOTO POLÍTICO

O TERREMOTO POLÍTICO E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Por Charles Krauthammer
Publicado no Washingtonpost em 05/5/2016

O que há por trás da vitória de Donald Trump? Na opinião dos conservadores, é que  ele, o forasteiro, sentiu, avaliou e surgiu como representante de uma maciça revolta da base republicana contra o “establishment”.

Foi assim: Os líderes do partido Republicano fizeram todo tipo de promessas e ganharam, como prêmio, a Câmara, o Senado, 12 governos estaduais e 30 câmaras estaduais. Mesmo assim, eles não cumpriram o prometido.

Pesquisas de opinião consistentemente mostraram que uma maioria de eleitores  republicanos mostraram-se traídos por seus líderes.

Não apenas desapontados. Traídos. Por aqueles que, corrompidos por doações e lobistas, venderam-se.

Eles tiraram os fundos do programa de controle da natalidade (Planned Parenthood)?Não. Eles bloquearam a gastança governamental, hiper-liberalista? Não. Seja por incompetência ou venalidade, eles deixaram Obama passar por cima deles.

Agora vem o paradoxo. Se a insuficiente resistência ao liberalismo de Obama criou este senso de traição, por que, num universo de 17 candidatos, os eleitores escolhem o menos conservador?

Um homem que até ontem era ele próprio um liberal? O homem que doou dinheiro para os mesmos democratas de oposição ao partido republicano?

Acontece que Trump vem demonstrando simpatia pela saúde pública socializada, bem mais à esquerda do que o próprio Obama. E vai mais além: considera a saúde pública uma prioridade nacional, junto com a segurança. Ora, os republicanos sempre se opuseram à saúde pública estatal, e ele, Trump ainda apoia a educação pública federal, quando os republicanos acham que ela deveria ser estadual.

Quanto à Planned Parenthood, os mesmos conservadores que se posicionaram contra o “establishment” republicano por não cortarem as verbas do projeto, agora apoiam um candidato que elogia o plano, exceto para aborto.

Mais importante ainda, Trump  não tem nenhuma afinidade com a posição basilar do moderno conservadorismo: a volta para um governo menor e menos intervencionista. Ora, se o “establishment” ofereceu pouca resistência ao “Big Government” de Obama, o beneficiário logicamente deveria ser o mais radical de todos os oponentes ao Big Government , Ted Cruz.

Toda a carreira de Ted Cruz foi dedicada a promover o Tea Party, opondo-se ao líderes republicanos, o “cartel de Washington”. Mas, quando Cruz entrou no mano a mano com Trump no Indiana “OK Curral”, os republicanos se alinharam com Trump, e seu populismo.

Isto torna Indiana um ponto de inflexão histórico. Marca a mais radical transformação de um partido político no nosso tempo atual. Os democratas continuam na sua trajetória de um governo sempre em expansão, desde o New Deal, passando pela Great Society, por Obama e por Clinton. Enquanto isso, o GOP, o partido conservador, refinado e cristalizado por Ronald Reagan, torna-se populista.

Trata-se de um terremoto ideológico. Trump afirmou: ”Pessoal, eu sou um conservador, mas agora, quem está ligando para isso (“who cares”)?



segunda-feira, 7 de março de 2016

TRILOGIA

DONALD TRUMP, O DEFENSOR DA FÉ

Por Charles Krauthammer
Artigo publicado no Washington Post

O que aconteceu com os evangélicos? Eles eram considerados a base da candidatura de Ted Cruz. Ainda assim, Ted perdeu-os para Trump na Super Terça.
Cruz, apesar de tudo, ainda fez um desempenho razoável, ganhando o Texas, Oklahoma e Alaska. No Texas foi uma impressionante vantagem de 17 pontos percentuais. Entretanto, não foi, para ele, uma grande noite, capaz de nocautear Marco Rubio e emergir como o único contendor de Trump.
Cruz fez o dever de casa para ganhar a simpatia dos evangélicos e arrasar no Sul, unindo pastores e líderes locais. Contudo, foi derrotado por Trump nos outros estados por humilhantes margens: 21 pontos no Alabama, 13 na Geórgia, 14 no Tennessee, 16 na Virgínia, e principalmente, 36 em Massachusetts.
Como isto pode ter acontecido? Uma pessoa mais espiritualmente defeituosa e ignorante das Sagradas Escrituras do que Trump é difícil de achar. Como várias vozes cristãs anti Trump assinalaram, eles não podem apoiar um homem casado três vezes, exibindo uma impressionante lista de pecados, inclusive os sete pecados capitais.
Estes argumentos teológicos são eloquentes e apaixonados, mas nesta época de medo e ansiedade, não são prioritários. Agora os evangélicos não procuram um como eles, procuram um que os protejam.
Eles já apoiaram exemplares candidatos versados nas Sagradas Escrituras, sem resultado. Depois de Mike Huckabee e Rick Santorum e avaliações do próprio Cruz, eles estão crescentemente relutantes em apoiar candidatos de pensamento similar, mas que, sem embargo, são incapazes  de levar adiante a causa evangélica, num ambiente hostil, dominado pelo secularismo. Eles não têm ilusões acerca de Trump. Como também não têm expectativas de  um renascimento religioso. O que ele lhes oferece não é espírito, mas “músculo”.
O enlace foi esclarecido por Trump em um discurso feito na Liberty University, em Janeiro. Suas tentativas anteriores de posar como um cara evangélico foram risíveis e pouco convincentes. Na ocasião, ele fez mais um gesto, tipo “sou um de vocês”, citando um verso dos Coríntios, e ali traindo uma risível falta de familiaridade com o uso e a linguagem bíblica.
Mais adiante, no mesmo discurso, ele declarou como os cristãos estão sendo massacrados lá fora e nos Estados Unidos estão cercados, política e religiosamente. Ele então prometeu: “Nós vamos proteger a Cristandade”.
Interessante locução. Não apenas os cristãos, mas a própria cristandade. O que ele promete é ser o guardião, ficar nos portões das igrejas e proteger a fé. Ele será o centurião romano entre os cristãos e os bárbaros estrangeiros e os agressivos secularistas americanos.
A mensagem é clara: Eu posso não ser um dos seus, eu não sei citar corretamente a Sagrada Escritura, mas patrulharei as fronteiras da Cristandade em seu nome. Afinal, vocês querem um garoto do coro ou um  cara durão com um revólver carregado e uma atitude truculenta? Os evangélicos responderam maciçamente por Trump.
A essência do discurso de Trump em todos os lugares, bem além dos evangélicos é precisamente a mesma: ”Eu sou durão, vou proteger vocês”. Isto é o que o faz blindado. Sua falta de propostas, a natureza contraditória de seus pronunciamentos, que se mascara como uma proposta em si, seus caprichosos arroubos tornaram-se irrelevantes.
Ninguém está dando a mínima. O apoio dele não tem nada a ver com propostas. Na noite da Super Terça o problema da imigração deu pouco Ibope nas preocupações dos republicanos. Apenas 10% consideraram a imigração em primeiro lugar. O sucesso de Trump em sua draconiana posição anti imigratória não está na proposta em si, mas na atitude. Tipo “não vou mais tolerar isto” desafiador.
Esta é a razão porque nenhuma das retóricas ultrajantes que teriam destruído qualquer outra candidatura, nem um pouco arranhou Trump. Ele zomba do heroísmo de John McCain, insulta as roupas de Carly Fiorina, bajula Putin... e nada. Ele até ganha mais apoio pela sua destemida franqueza.
É o homem que, por três vezes recusou rejeitar David Duke e a Ku Klux Klan, nenhum candidato sobreviveria a isto. Trump não só sobrevive,  mas cresce. Logo depois ele ganha em  7 de 11 Estados e chega no limiar da nomeação.
Por isto, a única maneira de parar Trump é uma agressiva campanha no núcleo do seu apelo: seu caráter de protetor durão e confiável. Talvez seja tarde demais. Mas, qualquer outra coisa não surtirá efeito.


QUEM SEMEIA VENTOS COLHE TEMPESTADE

Por Dan Balz (Washington Post)

O establishment republicano não se conforma com a candidatura de Donald Trump, devido à sua heterodoxia. Os críticos do partido veem a ascensão de Trump como a consequência lógica de décadas de esforços dos republicanos em desmoralizar o governo
Em acréscimo, ultimamente, a passividade da liderança aceitando a virulenta e mesmo até racial oposição ao presidente Obama, contribuiu para a guinada anti establishment.

TENDO SEMEADO VENTOS, AGORA COLHEM TEMPESTADE.

Outros, contudo, dizem que o trumpismo, não importa o quanto ele ameaça a existência do moderno partido republicano, é uma manifestação mais ampla do desigual impacto da globalização na vida das pessoas, uma rejeição dos eleitores de instituições e elites em ambos os partidos, que eles veem que falharam em atender ou ouvir seus sofrimentos.

Na verdade ambos estão certos, um problema que tem implicações em ambos partidos majoritários já há alguns anos mas que se tornou mais agudo para os republicanos neste momento porque o partido precisa urgentemente destes eleitores para vender em Novembro.
Pode-se estudar o passado num espaço de 50 anos para encontrar razões ou explicações para a ascensão de Trump. Os republicanos há tempo tem estado engajado em recorrentes lutas entre o domínio do establishment e vários grupos rebeldes, conservadores em procura de romper o status quo.

Barry Goldwater venceu a batalha para a nomeação dobre as elites do Leste, lideradas por Nelson Rockfeller, porém rachou o partido e partiu para uma derrota humilhante na eleição geral. Das cinzas, surgiu Ronald Reagan, o qual, apesar de eleito duas vezes como governador da Califórnia, era visto com desdém pelas elites republicanas do leste.

O desafio de Reagan ao então presidente Gerald Ford nas primárias de 1976 representou a próxima etapa da luta anti establishment. A batalha foi para a convenção onde Gerald Ford prevaleceu. Quando Ford perdeu para Jimmy Carter, Reagan voltou e concorreu à liderança partidária.

Aos olhos dos republicanos anti establishment a eleição de George H.W. Bush em 1988 restaurou o establishment no poder. Em apenas dois anos veio outra revolta, agora liderada por Newt Gingrich quando Bush abandonou sua promessa de não aumentar os impostos, como parte de um controvertido acordo com os democratas sobre o orçamento.

A rebelião de 1990 contribuiu para a derrota de Bush (pai) para Clinton em 1992. Mais dois anos se passaram, as forças lideradas por Gingrich voltaram ao poder em 1994, virando o jogo novamente

Pesquisas mostram um empobrecimento da classe média americana desde os anos 70, e nos últimos 15 anos o problema acentuou-se devido à crise de 2001 e o colapso financeiro de 2008.
Apesar disto, a ortodoxia econômica republicana continuou a insistir em prescrever cortes nos impostos dos mais ricos, argumentando que esta seria a melhor maneira de estimular o crescimento econômico, beneficiando, por tabela, os mais pobres.

Além de problemas econômicos, Trump trabalha com o medo de uma América em mutação, um país culturalmente tolerante e racialmente diversificado. Isto é visto pelos conservadores como uma deterioração dos valores e do caráter do país.








A GUINADA PARA A DIREITA
Por Aluizio Gomes

A toda ação corresponde uma reação. É lei. Um excesso de esquerda ou de direita leva a uma reação do lado oposto. Daí, vemos sempre o termo “reacionário”, para aqueles que reagem a uma ação.
No momento, estamos focados no fenômeno Trump, onde procuro demonstrar ser uma “reação” aos avanços do outro lado. Os outros dois artigos desta trilogia mostram muito bem o que está acontecendo por lá.

1.     ALTERAÇÃO ÉTNICO DEMOGRÁFICA. O crescimento das populações latinas, e asiáticas dentro dos Estados Unidos levou a uma reação de descendentes de europeus, devido à concorrência por empregos e exibição de valores morais diversos.

2.     GLOBALIZAÇÃO- Com o fim da Segunda Guerra Mundial, Japão e Europa foram, os poucos se recuperando, outros países, como a Coréia do Sul, Índia, etc., libertaram-se do colonialismo, e cresceram. Assim, indústrias  por todo lado floresceram, concorrendo com marcas tradicionais americanas, as quais, tinham e têm, custos mais elevados. Mais uma razão para o americano ver seu emprego ameaçado.

3.     AVANÇO LIBERAL. Os conservadores americanos claro que são contra o aborto e o casamento gay e, além disto, devido ao racismo, ostensivo ou enrustido, nunca engoliram a eleição de um mulato para a Casa Branca. Barack Obama foi bombardeado por 8 anos pela extrema direita, incrustada no partido Republicano: surgiu o Tea Party, usaram e abusaram do “gridlock”, do “filibuster”, travando o executivo e o legislativo. Terminou o presidente perdendo o controle da Câmara e do Senado, fazendo com que as coisas não andassem.
A reação, depois da sistemática campanha republicana em desmoralizar o governo, veio com a ascensão de um cara de fora dos partidos, Donald Trump.
Desde os tempos de Ronaldo Reagan, que dizia: ”Governo não é a solução, governo é o problema”, que existe, em muitos setores a campanha para desmoralizar o governo: “governo só pensa em gastar, aumentar impostos, e dar benefícios sociais, etc, etc”

É o puro individualismo americano. Cada um deve se virar sozinho, vencer na vida pelo seu próprio esforço, sem precisar de benefícios sociais.