| CONTENCIOSO DA PETROBRÁS | ||
| TRIMESTRE | VALOR, EM US$ BI | |
| 31/03/2003 | $25,68 | |
| 30/06/2003 | $30,38 | |
| 30/09/2003 | $32,28 | |
| 31/12/2003 | $36,19 | |
| 30/06/2004 | $34,19 | |
| 30/09/2004 | $37,31 | |
| 31/12/2004 | $40,58 | |
| 31/03/2005 | $40,19 | |
| 30/06/2005 | $42,68 | |
| 30/09/2005 | $45,72 | |
| 31/12/2005 | $45,72 | |
| 31/03/2006 | $46,84 | |
| 30/06/2006 | $45,14 | |
| 30/09/2006 | $47,73 | |
| 31/12/2006 | $54,38 | |
| 31/03/2007 | $52,86 | |
| 30/06/2007 | $54,84 | |
| 30/09/2007 | $56,68 | |
| 31/12/2007 | $64,54 | |
| 31/03/2008 | $66,63 | |
| 30/06/2008 | $73,96 | |
| 30/09/2008 | $67,38 | |
| 31/12/2008 | $63,79 | |
| 31/03/2009 | $67,74 | |
| 30/06/2009 | $78,30 | |
| 30/09/2009 | $99,16 | |
| 31/12/2009 | $106,21 | |
| 31/03/2010 | $108,88 | |
| 30/06/2010 | $113,04 | |
| 30/09/2010 | $123,56 | |
| 31/12/2010 | $126,08 | |
| 31/03/2011 | $139,94 | |
| 30/06/2011 | $146,88 | |
| 30/09/2011 | $134,79 | |
| 31/12/2011 | $145,10 | |
| 31/03/2012 | $153,43 | |
| 30/06/2012 | $144,09 | |
| 30/09/2012 | $149,50 | |
| 31/12/2012 | $166,68 | |
| 31/03/2013 | $178,26 | |
| 30/06/2013 | $185,39 | |
| 30/09/2013 | $187,05 | |
| 31/12/2013 | $173,93 | |
| 31/03/2014 | $197,76 | |
| 30/06/2014 | $199,62 | |
| 30/09/2014 | $193,56 | |
| 31/12/2014 | $181,98 | |
| 31/03/2015 | $164,65 | |
| 30/06/2015 | $176,80 | |
| 30/09/2015 | $161,62 | |
| 31/12/2015 | $165,28 | |
| 31/03/2016 | $167,60 |
domingo, 31 de julho de 2016
PETROBRÁS
sexta-feira, 22 de julho de 2016
DONALD TRUMP
UMA
AMEAÇA À DEMOCRACIA
Por
Aluizio Gomes
“Ninguém
conhece o sistema melhor do que eu, por isso sou a pessoa mais qualificada para
consertá-lo".
(Donald
Trump).
Aff,
é muita presunção!
Qual
a diferença entre a ascensão de Hitler e a de Donald Trump? Naquela época a
Alemanha tinha sido derrotada na guerra, foi humilhada pelo tratado de
Versailles, estava sob real ameaça comunista, além de uma inflação nunca vista.
Hitler capitalizou tudo isto e foi eleito pelo partido nazista. Já nos Estados
Unidos, não. A inflação está baixa, os juros, também, o desemprego está baixo
também, o PIB crescendo. Não há motivo para tanta demagogia. O único motivo é o
indisfarçável despeito dos brancos por um mulato estar na Casa Branca, por dois
mandatos .
Já
estive em Nova Iorque e presenciei o racismo. Isto numa cidade cosmopolita,
imagine no Alabama, Mississipi.
Agora,
vamos aos acordos comerciais. Trump alega que provocam desemprego nos Estados
Unidos. É uma mistura de hipocrisia, mentira, demagogia, e desinformação. A
economia americana passa de ser industrial para ser de serviços, se cai de um
lado, sobe de outro. Se um produto é feito na China a baixo custo, não pode ser
feito nos EUA a um custo muito maior. Se Trump, como quer, fabricar coisas nos
Estados Unidos, deixando de importar, a inflação vai aumentar, o produto vai
ficar caro, sem condição de concorrer com o importado. A inflação nos Estados
Unidos está em quase ZERO, o PIB aumentando, o desemprego baixo, e até a
produção industrial aumentando. Tudo o que Trump faz é simplesmente terrorismo,
aproveitando a ignorância generalizada das pessoas.
Outra
mentira: que os negros estão matando policiais. Não foi assim, os policiais
brancos começaram a matar negros indefesos, e só depois de a justiça nada
fazer, é que houve reação dos negros. VIOLÊNCIA E INJUSTIÇA GERAM VIOLÊNCIA.
Quem
assistiu ao filme "Mississipi Burning" (Mississipi em Chamas), com
Gene Hackman e Willem Dafoe, pôde ver o arraigado racismo lá.
domingo, 3 de julho de 2016
sexta-feira, 24 de junho de 2016
O SONHO
O
GRANDE SONHO ATÁVICO EUROPEU
Por
Aluizio Gomes
Geólogo
A
Europa começou a ser ocupada pelo homem com o fim da última glaciação. O homem
originou-se na África, migrou para a Ásia e , com o recuo das geleiras, chegou
à Europa. Os fósseis, restos de esqueletos, artefatos de metal e cerâmica,
pinturas rupestres, etc., foram e são encontrados por todo o continente
europeu. Os fósseis humanos foram classificados em dois grupos principais, o
homem de Neandertal, e o homem de Cro-Magnon, registros do Paleolítico e
Neolítico.
Os
séculos foram passando, mas o europeu continuava brutal, troglodita. O
asiático, ao contrário, começou a evoluir, desenvolveu a escrita, domesticou
animais e plantas, bem como o comércio e a navegação. Daí a formar os primeiros
impérios foi um passo: Assírios, persas, egípcios, babilônios, hititas, etc.
Já
na Palestina, a evolução foi espiritual e não material. Até hoje o Antigo
Testamento nos guia neste sentido. E a Europa? Ainda no atraso. Anos se
passaram até que os gregos começaram a sair da letargia, e formaram uma
admirável civilização, e depois um império oriental, sob o comando de um macedônio.
Só
depois apareceu o império romano, forte, organizado, que engoliu todo mundo, na
Ásia e na Europa. Até hoje, o Direito Romano guia o conhecimento jurídico. Com
a construção de estradas, ligando todo o império, rotas de navegação, e administração
organizada, podemos afirmar que foi a primeira globalização da História.
Um
dos motivos da queda do império romano foi a demografia, nas áreas externas
cresceram muito as populações bárbaras. Afinal, foram séculos de crescimento
populacional.Ao lado disto, os próprios bárbaros foram evoluindo economicamente
e culturalmente. Foi como uma bomba de efeito retardado. Implodiu com as invasões
bárbaras, enquanto internamente, os romanos se dividiam em querelas civis e militares.
Caiu o império, acabou a globalização, a cultura, e começou a Idade das Trevas
(Idade Média). A Europa foi fatiada entre os bárbaros, que adotaram a religião
cristã e o próprio latim, que podia ser escrito. As fatias germinaram em
nacionalidades independentes, franceses, ingleses, suecos, espanhóis, etc., que
começaram mais de mil anos guerreando entre si, procurando cada um a hegemonia,
nunca jamais alcançada.
Havia
um sonho, um sonho de restaurar o brilho de um império, o império romano. Mas
forças antagônicas, um nacionalismo exacerbado sempre obstaculizou a realização
deste sonho. Impérios menores, como o germânico e o russo, por exemplo,
conferiram títulos de César a seus imperadores: Kaiser e Tzar, significando
César.
Antes,
ainda no ano 800, o Papa já havia coroado Carlos Magno como imperador,
originando o Sacro Império Romano-Germânico, mas como uma vez disse Voltaire, nunca foi
Sacro nem Império e nem Romano.
Passaram-se
os séculos, mas o sonho não morre. Mussolini sonhou em restaurar o império,
Hitler sonhou no Reich de Mil Anos, tudo em vão.
Mais
modernamente, surgiu a ideia de uma União Europeia, sempre ao lado de um nacionalismo
separatista. A Iugoslávia e a Tchecoslováquia se fragmentaram, os ingleses
sempre foram arredios a uma união. Até hoje dirigem seus carros na contramão e nunca
adotaram o sistema métrico decimal, por pura implicância com os franceses, que
criaram estas reformas.
Certa
ocasião, afirmou Henry Kissinger: ”Quando quero falar com o Japão, sei a quem
me dirigir. Quando quero falar com os chineses também. Mas, quando quero falar
coma Europa, procuro quem?”
Finalmente,
para competir com japoneses e americanos, fundou-se a União Europeia.
Diferenças culturais e econômicas sempre foram pedras no sapato. O Reino Unido
entrou, mas com um pé fora, não adotou a moeda única, e agora, finalmente sai
da união, esfacelando mais uma vez o sonho atávico europeu.
Recife,
em 24 de Junho de 2016.
Publicado no Jornal do Commercio no dia 02/07/2016, não na íntegra, por falta de espaço.
Publicado no Jornal do Commercio no dia 02/07/2016, não na íntegra, por falta de espaço.
segunda-feira, 30 de maio de 2016
HISTÓRIA DE FAMÍLIA
HISTÓRIA DA FAMILIA
MEIRA LINS.
POR JOSÉ OTÁVIO
MEIRA LINS.
OBS: SALVAMOS DO FACEBOOK
APENAS OS CAPÍTULOS A SEGUIR (ALUIZIO GOMES)
5º Capítulo
ACHEI QUE TE AMAVA
Isso é um problema
de família. E dos dois lados. O avô por parte de mamãe tinha um listão de
setenta e duas namoradas. Papai, com cinco anos, já tinha se apaixonado
perdidamente pela professora de piano; passou uma semana sem comer quando
cancelaram as aulas. Comigo não podia ser diferente, foram muitas paixões. Não
confundam com amor ou safadeza, isso é outra coisa. Falo daquelas paixonites
platônicas, anônimas, que se apoderam de sua cabeça – pensa, pensa, pensa...
Paixão é coisa que perturba o juízo e não passa nem perto do coração. Começou
aos quatro anos, com a professorinha do jardim.
Na época era jardim
mesmo, pois a aula era embaixo de um caramanchão florido na casa da bela. A
vizinha paulistinha vinda do interior, puxando pelos erres, era um misto de
Dóris Day em “A espiã das calcinhas de renda” com figuras românticas de algumas
porcarias que li em M.Delly – avisei que não tive filtro na leitura. A filhota
do meio de um amigo de papai, com quem fizemos uma viagem de Kombi para o Rio –
linda, linda, linda... Uma alemãzinha que foi jogada lá em casa enquanto os
pais passavam uma temporada na Alemanha – branquinha, lourinha, com uma butuca
de olhos azuis. Passei da infância e, mesmo assim, ainda continuei com as
paixonites agudas. A bela do muro – passava a tarde em cima do muro em frente
ao prédio onde morava, uma decepção quando finalmente me aproximei, pois só
comia batata frita e execrava qualquer outra variação gastronômica, o que era
um sacrilégio para quem vem de uma família em que a comida é cláusula pétrea da
boa vida. A outra, que fingia ser ela e me deixava louco, ligava para mim assim
que passava em frente ao prédio da bela; quando descobri, tive a maior
oscilação na autoestima que um cara pode ter.
A priminha que
correspondia, mas que a norma de família – primo não namora com prima –afastou.
Uma irmã mais velha de uma tia torta, belíssima, mas muito barro pro meu
caminhãozinho. Muito barro mesmo, pois hoje pesa quase uma tonelada, de gorda
que é. As gêmeas cariocas que todo ano passavam o Carnaval na cidade, mas que
só tinham olhos para dois marmanjos com quem se casaram e se deram mal. A
coleguinha de faculdade que, na casa de campo – de medo – exigia dormir no meu
quarto, cuja barra não enfrentei, pois, por trás do rosto angelical, existia uma
fera que eu não sabia se podia controlar,sem falar nos peitões que não faziam
meu gosto na época. A paulista quatrocentona que só pensava em arrumar um
descendente de bandeirantes e execrava qualquer outra descendência, mesmo que
estivesse no solo pátrio desde mil quinhentos e trinta e dois. A coroa goiana,
mulherona, que dava, dava e dava corda, mas não ia além disso, pois era casada
com um cara pra lá de brabo. Precisou passar muitos anos e a viuvez para que...
aí já não foi paixão, foi safadeza mesmo.
Não consegui bater vovô no ranking das
namoradas, foram apenas quarenta e três, olha que comecei tarde. A primeira
pegada de mão aos dezesseis. Dois namoros sérios, um deles com alguns jogos de
guerra, pois, na época, não se podia fazer muita coisa. Avançou, casou. Com a
instituição da vela, a irmãzinha, que tava o tempo todo colada no casal... era
quase impossível até passar por perto dos peitinhos, maior sonho de consumo da
época. Com essa convivência toda, não foi nem uma, nem duas vezes, que me apaixonei
por uma linda irmã-vela. Confesso que tive algumas – muito poucas – chances de
penetrar o flanco inimigo, a galega sem os dedos dos pés foi uma delas, mas o
medo de acertar o pito da menina e ter que casar fazia qualquer um não passar
das coxinhas das garotas. Pra quem ficou curioso com a lourinha sem dedinhos, a
história é a seguinte: ela era linda, ela era inteligente, ela tinha um corpão,
no teste de praia era nota dez; o negócio é que, quando se chegava perto e se
olhava bem direitinho, faltavam os dedos do pé. As riquinhas, de boa família,
pareciam já ter nascido comprometidas; namoravam apenas com as parelhas dos
riquinhos de boa família. Outra baboseira era se apaixonar pelas mais velhas.
Pura roubada, pois elas pareciam que nem te enxergavam. Nesse caso, foram
muitas: a riquinha que de tão bonita levou um pretendente ao suicídio; a
húngara de olhos verdes; a modernosa que já fazia de tudo. Paixão, paixão,
sempre achava que amava. Passou a juventude, tudo na mesma. Entrei na fase
adulta, tudo na mesma. Já casado, tudo na mesma. Foi um carma que sempre me
acompanhou – se apaixonar.
7º Capítulo
MODISTA
Pai rico, filho
nobre e neto pobre. Esse era um dos ditados mais usados por vovó. Não era o seu
predileto, muito pelo contrário, mas o mais repetido. Foi na pele que ela
sentiu o dito popular. Vovô era filho do maior exportador de açúcar do país.
Ele e os irmãos tiveram o azar de perder a mãe bem cedo.
O pai, que entendia
tudo de exportação de commodities, e nada de educação, teve a
imbecil-ideia-genial-comercial de separar os
filhos, alguns ainda usando fraldas, e mandá-los para as melhores escolas em
cada um dos países com o qual negociava o danado do ouro branco. Vovô – para
sorte ou azar – caiu na terra da rainha.
No Eaton College,
convivendo com a fina flor da Bretanha, só podia ter aprendido mesmo duas
opções de vida, caçar, ler, caçar, tomar champanhe, caçar, cavalo puro-sangue
inglês de corrida, caçar, atravessar o Canal da Mancha para Paris, caçar e
comer bem, que ninguém é de ferro. Na volta da turma, só podia dar a merda que
deu. Em um ano de administração, detonaram uma cacetada tão grande de contos de
réis que o velho tomou de volta o rumo dos negócios, e aí ficou até morrer.
Vovô passou assim a fazer o que mais sabia: caçar, com suas espingardas feitas
sob medida no armeiro londrino, comer, ler em inglês, que era sua língua-mãe,
fazer neném em vovó. Depois que o bisavô milionário morreu, foram mais de vinte
anos vivendo nababescamente com o que tinha ficado de herança; olha que eram
dezesseis filhos e um monte de agregados. Meu avô comeu ruas e ruas de casas,
passou nos cobres engenhos e mais engenhos de açúcar.
O conceito era fazer o que o dinheiro desse.
Prova disso é que nunca colocou mais que alguns réis de gasolina no carro,
chegou o dia em que o Buikão de rodas de madeira ficou na garagem de casa,
nunca mais andou, porque a verba destinada não comprava nem um litro de
combustível. Ele, o nobre; papai, o mais velho dos dezesseis, o pobre. Nos
dezessete anos de papai, a grana havia acabado. Vovó, que era superprendada,
virou modista. Passou a costurar para a turma da sociedade. Quando o dinheiro
sai pela janela, o desamor entra pela porta. Vovó e vovô nunca mais se bicaram.
Meu velho teve que ir à luta. De porteiro a empresário, foram mais de vinte
anos. Nunca deixando para trás os irmãos. Foram anos roendo osso. Vovó chorava
toda vez que, na mesa, um dos meus tios dizia: acabei ou acabou-se. Papai
passou toda a vida comendo asa de galinha e o sobre. Mesmo podendo, nunca mais
se habituou a uma sobre coxa ou a uma titela. Mamãe, que tinha casado e ido
morar na mesma casa, criou parte da meninada. Não tinha comida que desse.
Várias vezes, quando as coisas melhoravam, se saciava os esfomeadinhos com
vinte quilos de batata frita, feitas em caldeirões no fogão externo, a lenha. A
solução foi passar a criar porco, galinha e peru.
O perigo era uma vizinha
de mão-leve. Os bichos só pararam de sumir quando vovó, após uma contagem
conjunta-criteriosa, contratou-a para tomar conta do rebanho. A família sempre
teve fixação por peru. Era a única ave que aguentava o tranco da fome da
meninada e de vovô. Começaram abrindo uma pequena oficina no oitão da casa.
Todos trabalhavam. O negócio foi crescendo. As estradas ruins quebravam muitas
molas, abriram uma fábrica. Compraram uma frota inteira de caminhões, surgiu a
transportadora. Daí para se conseguir revendas autorizadas, fazendas de gado,
siderúrgica de ferro gusa, hotéis não foi um pulo, não, foram mesmo muitos anos
de pedreira. O velho se recuperou de tudo, só não recuperou o gosto de gastar
dinheiro. Tinha uma verdadeira obsessão por segurança. Achava que o dinheiro
era pra se guardar. Via assombração em tudo. Não abria mão de fazer o imposto
de renda de toda a família, o que transformava essa época num imenso terror
familiar. Um dos poucos luxos que se dava era, de vez em quando, fazer uma
comprinha por reembolso postal. Em computador nunca tocou, mas foi um dos
primeiros empresários a colocar um nas empresas.
8º Capítulo
FRITADA E PASTELÃO
Essa minha família acha que a tal da comida é milagrosa, a
começar pela lenda de que meu bisavô foi salvo da gripe espanhola por um dos
tradicionais e pesadíssimos pratos típicos da família. O cara tava ferrado, de
cama, suando mais que bode embarcado, sentiu o cheiro da mão de vaca feita pela
preta velha na cozinha, colocou o robe de chambre, desceu a escadaria, comeu
dois pratões da famigerada com pirão, teve uma suadeira dos diabos, subiu as escadas,
tomou banho, colocou o fraque com colete, pegou o carro de aluguel, foi para os
seus armazéns no cais do porto. Mandou a espanhola para além-mar, pra não dizer
coisa feia. Temos uma puta fixação em comida. Isso ocorre há mais de quatro
gerações. A maior parte da família já nasce cozinhando, seja homem, seja
mulher. Dessa obsessão não escapa ninguém. Em época de fartura, em época de
penúria, a comida é ponto central na cabeça da parentada. O interessante é que
não tem gordo na família. O que os caras querem mesmo é se deliciar. O que
importa é a qualidade, não quantidade.
Mesmo na pior das situações, a turma nunca deixou de falar do
tal do arenque, do hadoque, do caviar, do salmão defumado, mesmo que fosse só
pra ficar com água na boca. Sem falar que se usa comida até pra gozar os
outros. A fritada de miolos de boi de vovó foi muitas vezes servida sem se
dizer à vítima do que se tratava. De tão gostosa, quem não sabia o que era,
enfiava o pé na jaca. Tinha gente que, depois de se refestelar, quando ficava
sabendo o que tinha comido, corria sem a menor discrição para o banheiro e
enfiava o dedão na goela. Toda história gira sempre em torno da comida: o amigo
caçador que meu avô considerava já morto, sumido há mais de quinze anos, que
ressuscitou batendo no portão exatamente no dia de uma panelada de mão de vaca,
sua comida predileta. Cada um tinha, para os que já morreram, ou têm, para os
que estão vivos e bulindo, um prato de sabor imbatível inesquecível. As tias:
bolo de limão, bolo de banana, bolo de rolo, bolo de laranja, frango de forno,
cozido, cassoulet, as inesquecíveis panquecas etc. As avós: feijão-mulatinho
feito no caldeirão de barro no fogo de carvão, sopa de feijão, sopa de milho,
peruada etc. Mamãe: sarapatel, vatapá, pirão de nenê, coq au vin, bacalhau de
coco etc. Papai: o bouillabaisse, o hadoque pochê, peixada com peixe fresco
bulindo, caviar com ovos cozidos, cebolas bem picadinhos, alcaparras etc.
Meu DNA não podia falhar. Com dez anos, pedi a minha avó que
fizesse as famosas tapiocas de manteiga até eu pedir, por favor, pra parar. Aos
onze, já sabia o dia do kassler com chucrute na casa da tia casada com o suíço.
Nunca sem avisar da ida com antecedência, pois lá a ração era na conta certa,
não comunicou que ia, ficava sem comer. Na casa da tia das panquecas, quando eu
aparecia de surpresa, ouvia sempre o código FC. Descobri muito tempo depois que
o “Família Contenha-se” era dirigido à voracidade dos sete filhos na mesa e uma
consideração à visita. Tinha gente que até escondia comida: ganhava um prêmio
quem descobrisse onde vovô escondia o presunto cru, as misteriosas latas de
arenque e os potes de caviar de papai, que só apareciam na hora da mesa, os
chocolates suíços do tio suíço, que duravam todo tempo entre uma viagem e outra
para a Suíça. Quem é louco por comida passa também por poucas e boas. Uma vez,
no interior, tive que comer um tatu que seria maravilhoso se a cozinheira não o
tivesse servido com as próprias mãos, com o esmalte das unhas descascado. Ou o
tal de picoroco no Chile, que mais parecia um caramujo apodrecido. Ouriço?,
estou fora; rabo de tanajura?, também. Buchada de bode, tem que dizer que não
gosta; depois, sentir o cheiro e aí aceitar, se não cheirar à merda de bode.
Cozinho quase tudo e com facilidade. Ficou com água na boca? Gosta de cozinhar?
No final dou umas receitinhas de família para você arriscar.
sábado, 7 de maio de 2016
UM TERREMOTO POLÍTICO
O TERREMOTO POLÍTICO E SUAS
CONSEQUÊNCIAS
Por Charles Krauthammer
Publicado no Washingtonpost em
05/5/2016
O que há por trás da vitória de
Donald Trump? Na opinião dos conservadores, é que ele, o forasteiro, sentiu, avaliou e surgiu
como representante de uma maciça revolta da base republicana contra o “establishment”.
Foi assim: Os líderes do partido
Republicano fizeram todo tipo de promessas e ganharam, como prêmio, a Câmara, o
Senado, 12 governos estaduais e 30 câmaras estaduais. Mesmo assim, eles não
cumpriram o prometido.
Pesquisas de opinião
consistentemente mostraram que uma maioria de eleitores republicanos mostraram-se traídos por seus líderes.
Não apenas desapontados. Traídos. Por
aqueles que, corrompidos por doações e lobistas, venderam-se.
Eles tiraram os fundos do programa
de controle da natalidade (Planned Parenthood)?Não. Eles bloquearam a gastança
governamental, hiper-liberalista? Não. Seja por incompetência ou venalidade, eles
deixaram Obama passar por cima deles.
Agora vem o paradoxo. Se a
insuficiente resistência ao liberalismo de Obama criou este senso de traição,
por que, num universo de 17 candidatos, os eleitores escolhem o menos
conservador?
Um homem que até ontem era ele
próprio um liberal? O homem que doou dinheiro para os mesmos democratas de
oposição ao partido republicano?
Acontece que Trump vem demonstrando
simpatia pela saúde pública socializada, bem mais à esquerda do que o próprio
Obama. E vai mais além: considera a saúde pública uma prioridade nacional,
junto com a segurança. Ora, os republicanos sempre se opuseram à saúde pública
estatal, e ele, Trump ainda apoia a educação pública federal, quando os
republicanos acham que ela deveria ser estadual.
Quanto à Planned Parenthood, os
mesmos conservadores que se posicionaram contra o “establishment” republicano
por não cortarem as verbas do projeto, agora apoiam um candidato que elogia o
plano, exceto para aborto.
Mais importante ainda, Trump não tem nenhuma afinidade com a posição
basilar do moderno conservadorismo: a volta para um governo menor e menos
intervencionista. Ora, se o “establishment” ofereceu pouca resistência ao “Big
Government” de Obama, o beneficiário logicamente deveria ser o mais radical de
todos os oponentes ao Big Government , Ted Cruz.
Toda a carreira de Ted Cruz foi
dedicada a promover o Tea Party, opondo-se ao líderes republicanos, o “cartel
de Washington”. Mas, quando Cruz entrou no mano a mano com Trump no Indiana “OK
Curral”, os republicanos se alinharam com Trump, e seu populismo.
Isto torna Indiana um ponto de
inflexão histórico. Marca a mais radical transformação de um partido político
no nosso tempo atual. Os democratas continuam na sua trajetória de um governo
sempre em expansão, desde o New Deal, passando pela Great Society, por Obama e
por Clinton. Enquanto isso, o GOP, o partido conservador, refinado e
cristalizado por Ronald Reagan, torna-se populista.
Trata-se de um terremoto
ideológico. Trump afirmou: ”Pessoal, eu sou um conservador, mas agora, quem
está ligando para isso (“who cares”)?
segunda-feira, 7 de março de 2016
TRILOGIA
DONALD
TRUMP, O DEFENSOR DA FÉ
Por
Charles Krauthammer
Artigo
publicado no Washington Post
O
que aconteceu com os evangélicos? Eles eram considerados a base da candidatura
de Ted Cruz. Ainda assim, Ted perdeu-os para Trump na Super Terça.
Cruz,
apesar de tudo, ainda fez um desempenho razoável, ganhando o Texas, Oklahoma e
Alaska. No Texas foi uma impressionante vantagem de 17 pontos percentuais. Entretanto,
não foi, para ele, uma grande noite, capaz de nocautear Marco Rubio e emergir
como o único contendor de Trump.
Cruz
fez o dever de casa para ganhar a simpatia dos evangélicos e arrasar no Sul,
unindo pastores e líderes locais. Contudo, foi derrotado por Trump nos outros
estados por humilhantes margens: 21 pontos no Alabama, 13 na Geórgia, 14 no Tennessee,
16 na Virgínia, e principalmente, 36 em Massachusetts.
Como
isto pode ter acontecido? Uma pessoa mais espiritualmente defeituosa e
ignorante das Sagradas Escrituras do que Trump é difícil de achar. Como várias
vozes cristãs anti Trump assinalaram, eles não podem apoiar um homem casado
três vezes, exibindo uma impressionante lista de pecados, inclusive os sete
pecados capitais.
Estes
argumentos teológicos são eloquentes e apaixonados, mas nesta época de medo e
ansiedade, não são prioritários. Agora os evangélicos não procuram um como
eles, procuram um que os protejam.
Eles
já apoiaram exemplares candidatos versados nas Sagradas Escrituras, sem
resultado. Depois de Mike Huckabee e Rick Santorum e avaliações do próprio Cruz,
eles estão crescentemente relutantes em apoiar candidatos de pensamento
similar, mas que, sem embargo, são incapazes
de levar adiante a causa evangélica, num ambiente hostil, dominado pelo
secularismo. Eles não têm ilusões acerca de Trump. Como também não têm
expectativas de um renascimento
religioso. O que ele lhes oferece não é espírito, mas “músculo”.
O
enlace foi esclarecido por Trump em um discurso feito na Liberty University, em
Janeiro. Suas tentativas anteriores de posar como um cara evangélico foram risíveis
e pouco convincentes. Na ocasião, ele fez mais um gesto, tipo “sou um de
vocês”, citando um verso dos Coríntios, e ali traindo uma risível falta de
familiaridade com o uso e a linguagem bíblica.
Mais
adiante, no mesmo discurso, ele declarou como os cristãos estão sendo
massacrados lá fora e nos Estados Unidos estão cercados, política e
religiosamente. Ele então prometeu: “Nós vamos proteger a Cristandade”.
Interessante
locução. Não apenas os cristãos, mas a própria cristandade. O que ele promete é
ser o guardião, ficar nos portões das igrejas e proteger a fé. Ele será o
centurião romano entre os cristãos e os bárbaros estrangeiros e os agressivos
secularistas americanos.
A
mensagem é clara: Eu posso não ser um dos seus, eu não sei citar corretamente a
Sagrada Escritura, mas patrulharei as fronteiras da Cristandade em seu nome.
Afinal, vocês querem um garoto do coro ou um
cara durão com um revólver carregado e uma atitude truculenta? Os
evangélicos responderam maciçamente por Trump.
A
essência do discurso de Trump em todos os lugares, bem além dos evangélicos é
precisamente a mesma: ”Eu sou durão, vou proteger vocês”. Isto é o que o faz
blindado. Sua falta de propostas, a natureza contraditória de seus
pronunciamentos, que se mascara como uma proposta em si, seus caprichosos arroubos
tornaram-se irrelevantes.
Ninguém
está dando a mínima. O apoio dele não tem nada a ver com propostas. Na noite da
Super Terça o problema da imigração deu pouco Ibope nas preocupações dos
republicanos. Apenas 10% consideraram a imigração em primeiro lugar. O sucesso
de Trump em sua draconiana posição anti imigratória não está na proposta em si,
mas na atitude. Tipo “não vou mais tolerar isto” desafiador.
Esta
é a razão porque nenhuma das retóricas ultrajantes que teriam destruído
qualquer outra candidatura, nem um pouco arranhou Trump. Ele zomba do heroísmo
de John McCain, insulta as roupas de Carly Fiorina, bajula Putin... e nada. Ele
até ganha mais apoio pela sua destemida franqueza.
É
o homem que, por três vezes recusou rejeitar David Duke e a Ku Klux Klan,
nenhum candidato sobreviveria a isto. Trump não só sobrevive, mas cresce. Logo depois ele ganha em 7 de 11 Estados e chega no limiar da nomeação.
Por
isto, a única maneira de parar Trump é uma agressiva campanha no núcleo do seu
apelo: seu caráter de protetor durão e confiável. Talvez seja tarde demais.
Mas, qualquer outra coisa não surtirá efeito.
QUEM
SEMEIA VENTOS COLHE TEMPESTADE
Por
Dan Balz (Washington Post)
O
establishment republicano não se conforma com a candidatura de Donald Trump,
devido à sua heterodoxia. Os críticos do partido veem a ascensão de Trump como
a consequência lógica de décadas de esforços dos republicanos em desmoralizar o
governo
Em
acréscimo, ultimamente, a passividade da liderança aceitando a virulenta e
mesmo até racial oposição ao presidente Obama, contribuiu para a guinada anti
establishment.
TENDO
SEMEADO VENTOS, AGORA COLHEM TEMPESTADE.
Outros,
contudo, dizem que o trumpismo, não importa o quanto ele ameaça a existência do
moderno partido republicano, é uma manifestação mais ampla do desigual impacto
da globalização na vida das pessoas, uma rejeição dos eleitores de instituições
e elites em ambos os partidos, que eles veem que falharam em atender ou ouvir
seus sofrimentos.
Na
verdade ambos estão certos, um problema que tem implicações em ambos partidos
majoritários já há alguns anos mas que se tornou mais agudo para os
republicanos neste momento porque o partido precisa urgentemente destes
eleitores para vender em Novembro.
Pode-se
estudar o passado num espaço de 50 anos para encontrar razões ou explicações
para a ascensão de Trump. Os republicanos há tempo tem estado engajado em
recorrentes lutas entre o domínio do establishment e vários grupos rebeldes,
conservadores em procura de romper o status quo.
Barry
Goldwater venceu a batalha para a nomeação dobre as elites do Leste, lideradas
por Nelson Rockfeller, porém rachou o partido e partiu para uma derrota
humilhante na eleição geral. Das cinzas, surgiu Ronald Reagan, o qual, apesar
de eleito duas vezes como governador da Califórnia, era visto com desdém pelas
elites republicanas do leste.
O
desafio de Reagan ao então presidente Gerald Ford nas primárias de 1976
representou a próxima etapa da luta anti establishment. A batalha foi para a
convenção onde Gerald Ford prevaleceu. Quando Ford perdeu para Jimmy Carter,
Reagan voltou e concorreu à liderança partidária.
Aos
olhos dos republicanos anti establishment a eleição de George H.W. Bush em 1988
restaurou o establishment no poder. Em apenas dois anos veio outra revolta,
agora liderada por Newt Gingrich quando Bush abandonou sua promessa de não
aumentar os impostos, como parte de um controvertido acordo com os democratas
sobre o orçamento.
A
rebelião de 1990 contribuiu para a derrota de Bush (pai) para Clinton em 1992.
Mais dois anos se passaram, as forças lideradas por Gingrich voltaram ao poder
em 1994, virando o jogo novamente
Pesquisas
mostram um empobrecimento da classe média americana desde os anos 70, e nos
últimos 15 anos o problema acentuou-se devido à crise de 2001 e o colapso
financeiro de 2008.
Apesar
disto, a ortodoxia econômica republicana continuou a insistir em prescrever
cortes nos impostos dos mais ricos, argumentando que esta seria a melhor
maneira de estimular o crescimento econômico, beneficiando, por tabela, os mais
pobres.
Além
de problemas econômicos, Trump trabalha com o medo de uma América em mutação,
um país culturalmente tolerante e racialmente diversificado. Isto é visto pelos
conservadores como uma deterioração dos valores e do caráter do país.
A
GUINADA PARA A DIREITA
Por
Aluizio Gomes
A
toda ação corresponde uma reação. É lei. Um excesso de esquerda ou de direita
leva a uma reação do lado oposto. Daí, vemos sempre o termo “reacionário”, para
aqueles que reagem a uma ação.
No
momento, estamos focados no fenômeno Trump, onde procuro demonstrar ser uma
“reação” aos avanços do outro lado. Os outros dois artigos desta trilogia
mostram muito bem o que está acontecendo por lá.
1. ALTERAÇÃO ÉTNICO DEMOGRÁFICA. O crescimento
das populações latinas, e asiáticas dentro dos Estados Unidos levou a uma
reação de descendentes de europeus, devido à concorrência por empregos e
exibição de valores morais diversos.
2. GLOBALIZAÇÃO- Com o fim da Segunda Guerra
Mundial, Japão e Europa foram, os poucos se recuperando, outros países, como a
Coréia do Sul, Índia, etc., libertaram-se do colonialismo, e cresceram. Assim,
indústrias por todo lado floresceram,
concorrendo com marcas tradicionais americanas, as quais, tinham e têm, custos
mais elevados. Mais uma razão para o americano ver seu emprego ameaçado.
3. AVANÇO LIBERAL. Os conservadores americanos
claro que são contra o aborto e o casamento gay e, além disto, devido ao racismo,
ostensivo ou enrustido, nunca engoliram a eleição de um mulato para a Casa
Branca. Barack Obama foi bombardeado por 8 anos pela extrema direita,
incrustada no partido Republicano: surgiu o Tea Party, usaram e abusaram do
“gridlock”, do “filibuster”, travando o executivo e o legislativo. Terminou o
presidente perdendo o controle da Câmara e do Senado, fazendo com que as coisas
não andassem.
A
reação, depois da sistemática campanha republicana em desmoralizar o governo,
veio com a ascensão de um cara de fora dos partidos, Donald Trump.
Desde
os tempos de Ronaldo Reagan, que dizia: ”Governo não é a solução, governo é o
problema”, que existe, em muitos setores a campanha para desmoralizar o
governo: “governo só pensa em gastar, aumentar impostos, e dar benefícios
sociais, etc, etc”
É
o puro individualismo americano. Cada um deve se virar sozinho, vencer na vida
pelo seu próprio esforço, sem precisar de benefícios sociais.
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